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Sobre filmes e férias

Por ocasião das férias, o tempo livre foi irmanamente dividido entre descanso, sono, refeições, namoro e filmes. Entre os filmes escolhidos estiveram épicos, animações, dramas, suspenses e uma categoria à parte que chamaria de comédia de fantasia ou simplesmente “um filme do Wes Anderson”.

“Grande Hotel Budapeste” foi meu favorito dessa leva toda. Preferi esse filme pelo cuidado ao criar um universo diferente do naturalista, um universo inspirado em traços mais coloridos da realidade, traços estilizados onde cada detalhe compõe um mundo novo. A trama trata da necessidade de se provar a inocência de Gustave H., o concierge conquistador do famoso Grande Hotel Budapeste, acusado do assassinato de uma de suas amantes. Gustave e seu pupilo, o carregador de malas Zero, enfrentam a família da morta e o exército de um país fronteiriço, determinado a conquistar a república de Zubrowka, onde o funciona o Hotel.

“Grande Hotel…”  recria essa visão colorida, estilizada, diferente, que ao mesmo tempo instaura a lógica de um universo novo e instala cada personagem como uma engrenagem, funcionando de seu próprio modo particular dentro desse mecanismo maior, o próprio filme.

Como uma música que à primeira vista já transporta o ouvinte a um mundo novo, Wes Anderson abre as portas de um antigo baú de fantasias, de onde saca um novelo de lã colorida que seu espectador desvela devagar, saborosamente. A sensação de que a magia existe é incontrolável e a beleza de cada plano do filme é equivalente a uma obra prima.

“Detona Ralph” partilha características parecidas. É uma animação que se passa no mundo dos videogames. Nesse mundo, Ralph é um vilão responsável por destruir uma construção que o herói do filme, Felix Jr., deve consertar. Magoado por ser rejeitado pelos outros personagens do seu jogo, Ralph decide conquistar uma medalha que prove que ele também é um herói. O resultado é uma desordem envolvendo vários jogos diferentes e reviravoltas perfeitamente lógicas dentro daquele universo.

A cota de ficção das férias foi farta. Essas boas histórias, tranportando-nos para seu universo tão “distante”, tem a difícil missão de derreter as camadas de proteção que a própria vida nos exige e de nos devolver mais limpos, mais abertos, mais esperançosos. 2015 começa assim. Feliz Ano Novo!

Regina, 60 anos

O que eu aprendi com a minha mãe

A primeira coisa que aprendi com a minha mãe foi a cantar. “É tão calma a noite, a noite é de nós dois”. Depois aprendi a jogar ping pong. Todos em casa gostavam tanto que até compramos uma mesa. Aprendi a cortar as unhas, a escovar os dentes, aprendi a esperá-la chegar do trabalho, aprendi a esperá-la chegar no trabalho, aprendi que a coisa mais gostosa do mundo é baguete de salame com catupiry da padaria Real, de Indaiatuba.

Aprendi a dirigir com a minha mãe e no dia em que vendemos o Palio que ela tinha, ela me deixou ir guiando até o centro da cidade. Eu tinha 16 anos e foi a primeira vez que vi minha mãe me deixar fazer alguma coisa errada. Acho que ela estava cansada de me levar. Também, minha mãe me levou ao clube, ao clube de tiro, ao futebol, ao basebol, ao catecismo, à escola, à escola de inglês e ela até me mandou pra Itália e pra psicóloga. Com a minha mãe eu aprendi que ninguém tem resposta pra tudo. Aprendi que não saber também não tem problema.

Com a minha mãe eu aprendi a trabalhar. Como trabalha a minha mãe, de dia, de tarde e de noite. E quando não está trabalhando está estudando. Minha mãe me ensina a viver sem tempos mortos.

Uma das coisas mais importantes da minha vida eu aprendi com a minha mãe. Eu estava no terceiro colegial e passava um tempo considerável no bar do lado da minha escola, jogando sinuca. Um dia, final de tarde, o carro da minha mãe estacionou na frente e dele desceu uma fera. Tinha o rosto vermelho e gritava: “O que você está fazendo aqui, menino? Você tem vestibular! Não pode ficar no bar que nem esse bando de desocupados”

Eu nunca mais voltei àquele bar, por vergonha e porque com a minha mãe eu aprendi a ser mais responsável. Aprendi mais com a minha mãe do que com qualquer outra pessoa.

Hoje é seu aniversário e eu quero lhe ensinar uma coisa: que eu a amo mais do que ela pode imaginar! 

Feliz aniversário mamãe, você é fantástica!

Tomo dos duchas calientes al día.

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A entrevista do ator argentino Ricardo Darín ao apresentador Alejandro Fantino foi um ponto alto das notícias veiculadas na internet dessa semana.

Darín foi protagonista de filmes como “Nove rainhas”, “O segredo dos seus olhos” e “Um conto chinês”, encarnando personagens diferentes com charme, elegância e humor.

A entrevista versou principalmente sobre seu trabalho e entre outras pérolas, Darín explicou como recusou um convite para interpretar um traficante mexicano em um filme de Hollywood:
    – Mas e a grana que você podia ter ganho?
    – Para quê?
    – Para viver uma vida mais confortável.
    – Para quê? Eu tomo dois banhos quentes por dia. As pessoas me abraçam na rua e me dão beijos no rosto.

E sobre os Oscars:
    – A fantasia sobre a coisa é maior do que a coisa em si.

Nos papéis que interpreta, Darín carrega a mesma sobriedade perspicaz, íntegra e sincera.
    ***
A entrevista do Darín toca no ponto em que todos nós nos perguntamos: sou livre?
E a resposta, unânime, é “Quero ser”. Quero tomar dois banhos quentes por dia e isso bastar.
Obrigado Darín! E Bianca, por compartilhar!
   

Retratos de uma obsessão

https://www.youtube.com/watch?v=vjIBX5RrG4Q

É um filme com Robin Williams (como eu gosto desse ator!), onde seu personagem, um atendente de uma reveladora de fotos, é obcecado por uma família que sempre deixa seus filmes para revelar. A obsessão cresce e se torna perigosa.
Algumas obsessões são tão comuns que se tornam difíceis sequer de se perceber. Criticar, analisar, seduzir e agradar são algumas. Trabalho e dinheiro também podem se tornar obsessões: são lugares que alimento no meu exterior.
Servem ou serviram em algum momento, creio, porquê tentamos nos afirmar para os outros, porque precisamos nos distrair da incerteza de viver, porque queremos controlar como as coisas vão sair. É a natureza da minha mente estar aí, pesando os “sim” e os “não”.
Costumo pensar que em algum momento eu vou precisar soltar essa obsessões externas para ir mais profundo. Nessas horas, me respondo: Porquê não agora?
É o que eu quero compartilhar essa semana!
Um abração em todos vocês!

Competir

Um dos meus padrões automáticos, aquelas ações que eu faço sem perceber, é competir. Imagino que tenha servido na escola, para chamar a atenção dos professores ou em casa, muito cedo, para me destacar dos meus irmãos.

Eu me percebo aí quando sinto aquela oscilação entre a superioridade e a inferioridade, ou quando tento provar alguma coisa ou correr para acompanhar alguém que sabe muito, alguém que admiro, alguém com quem me comparo.

É ótimo quando consigo perceber essa energia aflita por um resultado, por uma conquista exterior. Então me lembro do “Pavão”, o antagonista na animação “Kung Fu Panda 2”. Numa das cenas, a velha tartaruga, conselheira do vaidoso Pavão o adverte com um dos maravilhosos provérbios chineses:

– Meu filho, o poço que você está tentando encher não tem fundo!

Meu antídoto para esse antigo “HD” competitivo é mudar a atenção para dar: para dar um “Bom dia” com alegria, dar meu melhor pelo meu próprio processo e me lembrar de que a habilidade de ver e perceber a grandeza de todas as pessoas também é uma qualidade!

É o que eu quero compartilhar essa semana.

Abração e um ótimo fim de semana!

O passarinho

Meu mundo está mudando rápido: casa nova, escolhas novas, trabalhos novos, transformação. Nessas horas de muito movimento, quando não há uma ordem segura ou entendimento muito apurado das coisas, me lembro da história do rei que encomendou aos artistas do seu reino um quadro que representasse a paz. O quadro mais completo em sua representação seria premiado.

Após algumas semanas, dois finalistas disputavam o primeiro lugar. O primeiro era a imagem de um lago plácido que refletia montanhas geladas e majestosas. O segundo era a imagem de uma tempestade violenta, cheia de raios, vento e gotas de chuva, com árvores distorcidas pela força do temporal.

Ao encontrar seus súditos o rei lhes perguntou qual das duas imagens representava a paz e a resposta era unânime: a primeira.

Porém, um velho sábio que olhava atentamente respondeu:

– A segunda.

– E porquê? – O rei perguntou admirado.

– Embora a primeira represente uma paisagem específica, há na segunda uma árvore e em seu galho está um pássaro que, imóvel e tranquilo, observa a tempestade. Esse pássaro representa a paz.

É o que eu quero compartilhar essa semana!

Um abração e bom fim de semana pra todo mundo!

Marina e Ulay

Uma das coisas que mais me tocou nesses últimos dias foi o reencontro de Marina Abramovic e Ulay.

Marina Abramovic é uma artista que trabalha com performance, um estilo de arte contemporânea que pode contar com a participação de pessoas. Não é um teatro, está mais para uma experiência. Numa das performances recentes, ela compartilha um minuto de silêncio com pessoas que se sentam à sua frente, numa galeria de arte. Uma pessoa por vez.

Li que Ulay foi seu namorado nos anos 70 e que eles faziam performances juntos. Depois de cinco anos de relação, os dois decidiram se separar e então combinaram que caminhariam pela muralha da China, cada um saindo de uma ponta, até se encontrarem no meio do caminho para dar um abraço e não se verem mais.

Na performance do minuto de silêncio, sem aviso prévio, Ulay se sentou na cadeira à frente de Marina e assim compartilharam seu minuto, 23 anos depois.

Como o aluno que levanta a mão e pergunta à professora aquela dúvida boba que todos tiveram, Marina experimentou na minha frente a sua emoção pelo reencontro e me emocionando com ela, saí mais leve desse lado.

Obrigado Marina Abramovic!