Category Archives: Reflexões

Todas as sextas-feiras, eu escrevo um texto compartilhando alguma experiência ou algo que mudou na minha visão de mundo. Você encontra esse texto aqui nessa sessão.

Marta

Para Vinicius Calderoni

A moça que tomava conta da biblioteca se chamava Marta e vestia avental quadriculado.

Se sentava detrás das lentes grossas dos óculos de grau e, experiente, conhecia os livros e seus lugares nos armários brancos. Conhecia as crianças e podia distinguir as doces das arrelientas, as alegres das medrosas, as filhas únicas das mais velhas ou caçulas.

Sabia, importante dizer, da agrura de ser criança ainda, e dependente, inculta, pequena demais para alcançar os livros da estante alta, com medo da mãe não voltar pra buscar no final da aula.

Além de mim, que urrava na entrada da escola, certo de nunca mais voltar pra casa, algumas outras crianças foram colocadas sob os cuidados de Marta para a espera da hora de ir embora.

Sem ressalvas, Marta sorria e lia, contando as histórias com rimas que fazem parte dos livros infantis. Sem ressalvas também, Marta gritava com quem entrasse de sapatos ou com bolas em sua preciosa biblioteca e, duríssima, protegia a biblioteca dos arreliantes e suas crueldades infantis.

E um pouco do coração de Marta ia pra casa com cada criança chorona como eu. Coração que levei comigo para todas as escolas onde Marta não estava.

Uma homenagem às heroínas invisíveis e às educadoras: nosso maior tesouro, em especial a atriz e amiga Marilia de Santis, que conclui mais uma etapa em sua brilhante trajetória profissional!

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O que se move

Além de dançar e atuar, Caetano escreve e dirige. Não o Veloso, o Gotardo.
Usávamos cabelo bem comprido quando eu o conheci, ainda nas aulas da faculdade. Hippies, jovens, inocentes e cheios de sonhos. Depois de assistir a “O que se move”, sinto que a única coisa que mudou foi o corte de cabelo. Caetano continua puro!
São três histórias, são três filhos, três famílias, três canções e ainda assim, é um filme só.
Na primeira, acompanhamos um garoto, filho da professora, em seus últimos dias de férias, aproveitando as noites na frente do computador; na segunda, nos intriga o mal estar físico de um pai enquanto sua mulher, também de férias, prepara o almoço; na última história, um casal emocionado se prepara para o encontro com um garoto que anseia conhecer.
Eu escrevo pouco sobre o enredo para não estragar as surpresas, que são o presente do Caetano Gotardo para o seu público. O filme é um dos melhores que vi em muito tempo.
Eu amo cinema e vejo todos os tipos de filme: da Disney, de Ação, Europeus, Animações (amo desenho animado!) porque todos os filmes, no fundo, tem uma história e eu amo histórias. Gostei a mais do filme do Caetano por que saí com a sensação de que ele contou a história acima do bem, do mal. Seu único compromisso era com o humano por trás de cada história: uma tarefa difícil. E cumprida com louvor: o filme dá a impressão de um diretor e uma vida que se entrega ao que acontece, como alguém que planta as verduras, rega e deixa que elas cresçam.
Sim, tenho muitos preferidos, amigos preferidos, primos, tias e tios preferidos. Este é mais um dos meus filmes preferidos.
E numa sessão discreta, com um público silencioso, não consegui me conter e gritei, entre os aplausos: BRAVO!
Parabéns Caetano!

Retratos de uma obsessão

https://www.youtube.com/watch?v=vjIBX5RrG4Q

É um filme com Robin Williams (como eu gosto desse ator!), onde seu personagem, um atendente de uma reveladora de fotos, é obcecado por uma família que sempre deixa seus filmes para revelar. A obsessão cresce e se torna perigosa.
Algumas obsessões são tão comuns que se tornam difíceis sequer de se perceber. Criticar, analisar, seduzir e agradar são algumas. Trabalho e dinheiro também podem se tornar obsessões: são lugares que alimento no meu exterior.
Servem ou serviram em algum momento, creio, porquê tentamos nos afirmar para os outros, porque precisamos nos distrair da incerteza de viver, porque queremos controlar como as coisas vão sair. É a natureza da minha mente estar aí, pesando os “sim” e os “não”.
Costumo pensar que em algum momento eu vou precisar soltar essa obsessões externas para ir mais profundo. Nessas horas, me respondo: Porquê não agora?
É o que eu quero compartilhar essa semana!
Um abração em todos vocês!

“Se dê o seu tempo”

Tenho muita sorte por ser ator. Encontro pessoas sensíveis e apaixonadas como companheiros de trabalho e na maioria das vezes trocamos impressões e aprendizados que garimpamos a cada trabalho. Os conselhos vão desde escolher um lugar silencioso para cochilar depois do almoço em uma gravação até dicas valiosas sobre como encarar textos e personagens.

A primeira vez que escutei a expressão “se dê o seu tempo” foi ainda na escola de teatro: um dos professores, um baixinho endiabrado que nos dava aulas de interpretação insistia para que tomássemos o tempo que precisasse, às vezes até a mais, para que uma cena acontecesse. Recentemente, num curso sobre Shakespeare, ouvi novamente esse conselho: “Tome seu tempo para dizer suas falas: ninguém vai interrompê-lo até você terminar.”

Acontece comigo de querer apressar algumas coisas: aprender mais rápido a cantar ou tocar violão, chegar mais rápido nos meus compromissos, superar mais rápido minhas perdas. Não funciona assim.

Esse chicotinho faz parte de uma velha conhecida minha: a dona Exigência, uma senhorinha magrinha, de personalidade áspera e severa, que mora aqui dentro de mim e que de vez em quando dá seus chiliques pra me atormentar.

– Geraaaaaaaaaldo, o que você está fazendo com esse violão? Essa pestana ainda não saiu direito.

– Eu estou aprendendo.

– Mas Geraaaaaaldo, como está desafinado.

– Calma, vou tentar de novo.

– Geraaaaaaaaldo, porquê essa cara hoje?

– Olha, dona Exigência, é melhor você maneirar um pouco com essas cobranças! A última coisa que eu preciso é de alguém que só sabe apontar os defeitos e dizer o que não está bom. Que tal se você começar a perceber o que nós já avançamos? Os rés, dós, sóis e lás que estão saindo bonitinhos e a música que eu já aprendi?

– Ah, mas…

– “Ah, mas…” não! Eu vou me dar o meu tempo. Passar bem.

E assim eu encerro a conversa com ela, mais leve e mais aberto para experimentar o que pode acontecer.

É o que eu quero compartilhar essa semana!

Abração e bom fim de semana!

PRESENTE!!

DISNEY

Minha cabeça é uma fábrica de histórias e nas suas engrenagens se produz de tudo: sonhos românticos, contos de terror, façanhas heróicas.

Produzir essas fantasias em geral é uma resposta ao presente em que vivo: respondo ao que julgo errado e não posso mudar sonhando com soluções e realidades novas e diferentes.

Mas como a avó da minha amiga dizia: “Se você julga alguma coisa, atitude ou pessoa, ou você se torna aquilo, ou você se casa com aquilo.”

As fantasias são apenas fantasias, mas como posso transformar o meu presente em algo habitável, pleno, exatamente como ele é?

A resposta é: indo para dentro e procurando aquilo que eu julgo fora e abraçando isso dentro de mim.

Se me incomoda a corrupção, olho para os momentos em que ainda não sou 100% transparente. Se me dói a carência, a pobreza ou a solidão que eu percebo nas pessoas, reconheço isso internamente e me alimento com minha própria compreensão, meu amor e minha flexibilidade. Não que não me importem as dificuldades que os outros vivem, apenas que preciso curar isso em mim para poder atuar no mundo de uma perspectiva de amor, não de julgamento.

Encontro que compartilhar essas reflexões da minha intimidade com vocês é um momento mágico para mim. Espero que desfrutem também!

É o que eu quero compartilhar essa semana!

Abração,

Geraldo

Vai Corinthians!!

No domingo, o Corinthians venceu o mundial de Clubes da Fifa. Vi o segundo tempo do jogo e vibrei quando Guerrero fez o nosso gol e quando Cássio ganhou a Golden Ball, símbolo do melhor jogador em campo. Não sou corinthiano e nem torço muito em jogos de futebol, mas esse jogo me prendeu por ser a final do campeonato.

Acontece às vezes de um evento assim oferecer uma motivação a mais e o jogo ferve de garra e vibração. Pra mim isso é maravilhoso porquê essa energia de fazer parte e de encontrar um lugar num time é preciosa.

Por algum tempo, desdenhei a motivação como se ela fosse mais um ingrediente do “sistema”, um auto-convencimento barato. Algumas vezes esse pensamento me ocorre, mas isso me faz parar e pensar diferente: a motivação é o que eu uso pra desenvolver meu potencial e compartilhar isso com os meus irmãozinhos terráqueos e pensar assim me serve, me alimenta. Se o “sistema (?)” se beneficia, ótimo, porque essa é a idéia: que todos se beneficiem.

Motivação é um brilho que serve para lustrar os meus sapatos antes de um casamento (como o da Xaxá e do Rodrigo, que foi muito emocionante), serve para fazer a barba e mesmo pra dormir, pra estar descansado no dia seguinte quando vou trabalhar ou passear.

E motivação foi o que levou o Corinthians da segunda divisão do Brasil, para o primeiro lugar do Mundo! Por isso, parabéns Corinthians!

Meu maior desejo

Meu maior desejo agora é me escutar.

Me escutar com toda abertura que permitir meu coração.

Escutar meu corpo que é confuso como um caminhão numa rua estreita. Escutar até que manobre e siga seu rumo.

Quero me escutar cada vez mais claro, cada vez mais alto. Quero só ter ouvidos para o que eu sinto.

E só quero dizer o que minha voz disser. As outras pessoas ficam desobrigadas de dizer a minha voz.

É o meu desejo de hoje que quero compartilhar com vocês!

Abração e boa semana!