Marta

Para Vinicius Calderoni

A moça que tomava conta da biblioteca se chamava Marta e vestia avental quadriculado.

Se sentava detrás das lentes grossas dos óculos de grau e, experiente, conhecia os livros e seus lugares nos armários brancos. Conhecia as crianças e podia distinguir as doces das arrelientas, as alegres das medrosas, as filhas únicas das mais velhas ou caçulas.

Sabia, importante dizer, da agrura de ser criança ainda, e dependente, inculta, pequena demais para alcançar os livros da estante alta, com medo da mãe não voltar pra buscar no final da aula.

Além de mim, que urrava na entrada da escola, certo de nunca mais voltar pra casa, algumas outras crianças foram colocadas sob os cuidados de Marta para a espera da hora de ir embora.

Sem ressalvas, Marta sorria e lia, contando as histórias com rimas que fazem parte dos livros infantis. Sem ressalvas também, Marta gritava com quem entrasse de sapatos ou com bolas em sua preciosa biblioteca e, duríssima, protegia a biblioteca dos arreliantes e suas crueldades infantis.

E um pouco do coração de Marta ia pra casa com cada criança chorona como eu. Coração que levei comigo para todas as escolas onde Marta não estava.

Uma homenagem às heroínas invisíveis e às educadoras: nosso maior tesouro, em especial a atriz e amiga Marilia de Santis, que conclui mais uma etapa em sua brilhante trajetória profissional!

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