A casa de Indaiatuba

Ainda está em Indaiatuba a casa onde vivi a maior parte da vida. Meu pai ainda mora lá e estive no meu antigo quarto duas vezes nessas últimas semanas.

Minha sensação é de que a casa diminuiu. De que as paredes estão menos altas e os corredores menos compridos. O silêncio continua o mesmo. A luz dentro da casa está mais forte, como se o sol escolhesse nos esquentar mais agora que é inverno.

Essa casa é tão familiar em todos os sentidos e parece que, em si, já ganhou vida. Como se em algum momento, como num conto de fadas, ela pudesse se erguer da terra ou começar a falar, conversando conosco sobre o passado, o presente e os segredos de cada um.

A casa de Indaiatuba foi construída pelo meu pai, no início dos anos 90 e a época Collor fez com que a casa fosse construída aos poucos, enquanto ainda morávamos nela. Convivemos com o Josias, nosso pedreiro, por bastante tempo, enquanto ele trabalhava colocando o piso, rebocando as paredes e assentando os azulejos. Ele tinha a habilidade de construir e de fazer lamparinas a querosene com latas de Nescau, o que eu aprendi e em que me tornei também habilidoso.

Depois vieram seu Noé (o pai) e Nilson (o filho), que terminaram a construção e deixaram a casa do jeito que é hoje: ainda rústica, espaçosa, iluminada. Meus tios brincam que nossa casa foi projetada pelo Vilaró, o uruguaio, pela sensação de labirinto que a casa do Vilaró em Punta Ballena dá, e que a nossa também dá.

De alguma forma, crescer e acompanhar a construção dessa casa foi algo que me marcou: sei das etapas para uma construção, das medidas para a mistura da argamassa, do tempo de secagem do concreto em vigas, colunas e lajes. Aprendi a pregar, a serrar canos, carreguei tijolos e cavei buracos para fundação. Eu e meus irmãos brincamos entre montes de areia que o caminhão trazia e hoje isso me enche de orgulho!

A construção da nossa casa, lentamente, me deu a sensação de que algumas coisas podem levar tempo para ficarem prontas, mas que no caminho reside muita alegria e muita descoberta.

Hoje estive em Indaiatuba e conversando com minha casa antiga, dei muitas risadas, lembrando das tardes chutando bola nas paredes, andando de bicicleta na garagem, chapiscando as paredes e limpando as ferramentas depois de um dia de uso.

A casa me confessou que sente falta da Andra, nossa cachorrinha, me disse que estou mais maduro, me contou que meu pai está bem, que se despediu do meu irmão antes dele viajar para a França, para seu mestrado e que pretende continuar em Indaiatuba por mais um bom tempo.

– Mas que saudade que eu estava de você, Pequeto! – me confessou – Apareça mais. Minhas portas estão sempre abertas.

E antes de me despedir eu a abracei como a uma mãe e agradeci pela companhia e pelo acolhimento. Ela, sensível, derramou uma lágrima pela caixa d’água e fechou os olhos junto com o portão, sorrindo com as janelas abertas!

– E traga seus amigos que eu gosto de conhecer gente nova!

O convite está feito! Quando eu aportar por Indaiatuba, quero apresentá-los à minha casa. Ela adora conhecer gente nova!

Advertisements

3 responses to “A casa de Indaiatuba

  1. Lindo texto.

  2. Me identifiquei bastante com a história da sua casa de Indaiatuba, vivenciei a construção da primeira casa em que morei e, tal como aconteceu com você, o contato após muito anos com a casa que me viu crescer foi bastante intenso, cheio de lembranças e sentimentos. Estive nela há uns cinco anos atrás, pareceu-me muito pequena, quase uma casa de brinquedo (e olha que não cresci tanto assim), conservando a mesma cor nas paredes, a mesma cerâmica no piso (bem anos 80), a mesma divisão de quartos e corredores, entretanto se encontra muito mal cuidada, o que me deixou muito triste. Quando a visitei ela já não pertencia mais à minha família, minha casa de infância foi vendida e não pretendo voltar a revê-la porque quero conservar as lembranças de quando vivia nela, nas minhas recordações minha casa de infância nunca precisará de reformas, afinal “o que a memória ama, fica eterno”.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s