Aulas de dança

Comecei com aulas de dança contemporânea há um mês em uma turma no Sesc Pompéia. Fui porque descobri que gosto de dançar e porquê me ajuda na minha profissão e estou encontrando um universo que não imaginava: meus colegas de aula.

São pessoas o mais diferentes o possível. Há homens, por exemplo, dançando muito bem e com leveza e sensibilidade. Meu dançarino favorito é o Chico. Um mulato de estatura mediana e dedão grande. Sorriso fácil e olhos concentrados, Chico leva a sério o ritmo, os passos e o movimento. Não sei o quê faz da vida além de dançar, mas fantasio um pouco a esse respeito. A paciência com que se dedica a aprender cada passo novo e a inocência e despretensão com que dança me fazem pensar que é o primeiro de sua família a estar numa aula de dança contemporânea. Ele inaugura um ciclo novo em sua história.

Sua irmã, ou namorada (não sei, mas a intimidade me deixou na dúvida entre as duas coisas), também vinha à aula mas tem faltado. Chico vem mesmo sozinho, não importando se terá que seguir carreira solo: a paixão pela dança é maior!

Em meu fantasiar inocente, me surpreendo imaginando Chico puxando um carrinho de levar papelão. É a alternativa que me ocorreu desde o primeiro dia, quando contou que começou a dançar dentro de um projeto social. E imagino Chico cantando para si mesmo enquanto procura, o quê não sei, nas caçambas de entulho. E imagino Chico  cantando quando passa no meio dos carros e um dia, vejo Chico no Viaduto do Chá. É verão, são quatro da tarde e as pessoas se apressam porquê o céu tem uma tempestade armada e furiosa. Na loja de eletrodomésticos o rádio intercala a voz do homem que chama os clientes com trechos de música clássica, pianos que costumamos escutar na aula de dança. O som é alto e aproveitando os pingos de chuva que começam a cair, Chico solta o carrinho e, com os olhos fechados, repete nossa coreografia da aula. A música continua em dós, rés, sóis, lás e cá, Chico na chuva abre os olhos pra ver o espaço onde improvisa um solo. As nuvens emocionadas aumentam a vazão de pingos e então só se ouve sua melodia tremenda ainda mais dramática pelos trovões e relâmpagos que enquadram Chico no Viaduto do Chá.

Chico e a chuva se entendem e durante o solo o dançarino sorri, matando o calor com a ousadia e soltando o peso dos ombros com a dança.

E eu aplaudo o final da performance em pé, olhando pelo Vale do Anhangabaú ao longe, feliz de ter sido o primeiro a descobrir o talento do Chico e volto a caminhar apressado embaixo do meu guarda-chuva, enquanto Chico murmura para si mesmo a melodia de uma canção que só ele conhece.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s